Aventuras no nordeste real
"Oi mãe! Como estão as coisas aí?" "Muito frio! Saiu no jornal que em Florianópolis tá 0 grau! Você levou um casaquinho né?" "Mãe! Eu tô falando contigo de um orelhão na Praia do Futuro, de biquine e a quase 40 graus!" Assim foi o meu primeiro dia em Fortaleza, onde fui pra participar do Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação (ENECOM). Julho e um calor infernal! Meu melhor verão no inverno. 
Três dias de viagem, de microônibus. Impossível não comentar. Sempre falei que em época de faculdade temos que fazer umas loucuras como essa. Afinal, uma dorzinha nas costas, noites mal dormidas e tomar banho na estrada ainda são coisas que se consegue aguentar. O bom foi estar com uma galera divertida e em sintonia: na hora de festar, todo mundo festa junto, quando outro começa a ler, de repente todos estão com um livro nas mãos. E como não chegamos a tempo para o credenciamento e para a vivência, nada melhor do que praia pra relaxar. 
Praias que são tão lindas quanto as de Santa Catarina, mas obviamente com uma natureza bem característica, a exemplo dos coqueiros. Consegui conhecer a Praia do Futuro e Canoa Quebrada. Esta última fica há umas 2 horas de Fortaleza, mas vale a pena cada minuto no ônibus e cada buraco na estrada. As famosas falésias não são tão grandes quanto eu esperava, mas fazem com que o local tenha o pôr do sol mais bonito que já vi. O povo é outro caso à parte, e decididamente merece mais destaque do que as praias, que já se tornaram praxe nas descrições sobre o nordeste. Talvez pelo calor, talvez pela diversidade de cachaças baratas ou até mesmo por poder comprar castanhas de caju a quilo, formam um povo sorridente e receptivo. E apesar das dificuldades, encaram tudo com bom humor e com o jeitinho brasileiro de ser. Exemplos? Vários. No mesmo dia da Praia do Futuro, resolvemos ir a uma feirinha no centro, e de repente para um microônibus ao nosso lado. "Vai pra feirinha do centro moço?" "Vai sim, para lá na frente. Vai entrando, vai entrando!" E lá fomos nós, umas sete pessoas, entrar no microônibus que já estava cheio. "Moça, você pode sentar ali, do lado do motorista. Coloca a bolsa desta outra mulher aqui, e vocês se expremem ali no ladinho." A situação foi ficando crítica. A tal lotação andava com a porta aberta, e mais gente ia entrando, com o cobrador ditando onde deveríamos sentar e para onde o motorista deveria ir. E começamos a passar pela periferia, com estrada de chão batido, crianças correndo descalças e pessoas com sacolões entrando e saindo. Eu, com a minha cara de turista impossível de esconder, bem à frente do ônibus, com um janelão imenso na minha frente, como se dissesse "oi, sou turista! Venham me roubar". Nosso grupo conversava pelo olhar e, apesar da tensão, estávamos achando tudo incrível. Um bando de jornalistas bobos com mais uma história pra contar. Juro que com aquela porta aberta, pensei que fosse algo planejado para roubar os turistas. Minha mente se mostrou fraca e preconceituosa; em pouco tempo estávamos na avenida principal. Rua larga, asfalto, shoppings e apesar do motorista não dirigir direito, chegamos sãos e salvos. Um contraste de imagens, como se aquela imensidão de concreto quisesse dizer alguma coisa. "Aqui vocês não têm vez, são apenas figurantes." Um povo admirável, que encara as situações mais inóspitas com bom humor e de cabeça erguida. E ainda dança forró pra espairecer. 
Minha vontade é falar um pouco mais de tudo e retormar as milhões de coisas que não comentei, mas vou deixar isso para outra hora. OBS: Talvez minha descrição já não são seja tão precisa quanto seria se a tivesse feito assim que cheguei de viagem. Faz tempo que queria escrever minhas impressões aqui, mas com tanta coisa acontecendo acabo deixando o blog de lado. De qualquer maneira, vale a pena tentar e deixar registrado.
Escrito por Laís Mezzari às 00h50
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