Reflexões no ônibus
Ainda na saga "aventuras no ônibus", tenho algumas considerações a fazer: Estou pasma. Saindo de São José às 8:30 da manhã, demora mais de 1h30min pra chegar na UFSC!! Quase uma viagem pra Joinville! Isso que nem era horário verdadeiramente de pico! Fones de ouvido deveriam vir com prazo de validade. Sinto-me invadida quando as pessoas estão lendo o mesmo que eu. Em especial quando não as conheço, e elas viram o rosto descaradamente para ler a revista que está no meu colo. Só em Florianópolis você encontra ônibus indo para Saco Grande, Pantanal, Saco dos Limões e Carvoeira e, em contrapartida, também para Lisboa, Madri e Los Angeles.
Escrito por Laís Mezzari às 17h45
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Escondido no olhar
Ando pela rua à procura de alguém interessante de se descrever. Busco atentamente e talvez pela pouca quantidade de pessoas na rua Lauro Linhares às sete e meia da noite, ou talvez por saber que pessoas aparentemente comuns têm muitas histórias a contar, me deparo com uma jovem senhora. Nada de excêntrico. Nenhum piercing, nem cabelos coloridos; nada que faça dela uma pessoa que queira chamar a atenção. Simplesmente uma pessoa como outra qualquer. Com sentimentos, dúvidas, certezas, razão e que não tenta se disfarçar por meio de esquisitices. Ela anda em linha reta pela calçada disforme. Seus cabelos são curtos, levemente encaracolados e de cor castanho avermelhado. Certamente tinta para disfarçar a idade. E apesar do cabelo rejuvenescedor, tem as costas um pouco curvadas e o passo delicado, cheio de atenção, mas com certeza para onde está indo. Suas roupas são de tom marrom, a calça alta mais clara, com forma quase social e um casaco meio esportivo em tom escuro com alguns detalhes coloridos sobre o peito. Na verdade não combinavam, mas a tornavam invisível. Inicialmente achei que era isto mesmo que ela queria: ser invisível. Tinha um leve ar de melancolia que perpassava através do seu andar e do seu olhar, como se alguma reflexão constante permanecesse em sua mente. Em pouco tempo chegou ao ponto de ônibus. A parada relativamente iluminada e com uns três jovens a esperar. A senhora se senta, e aguarda ansiosa. A cada ônibus que aparece ao longe, fazendo a rótula da Trindade, próximo à universidade, ela levanta, tentando observar o nome. Dá um sorriso tímido e diz a um dos jovens que espera o Volta ao Morro da Carvoeira. Não, ela não quer ser invisível. Ainda tenta puxar mais algum de assunto, mas essas conversas sobre ônibus nunca rendem o suficiente. Prefere se calar. Eu coloco os fones de ouvido para manter minha observação sem contato, mas em busca de alguma interferência interna, procuro uma música que sirva de trilha sonora à situação. Encontro Sia Furler e sua voz meio triste, quase que pedindo algo. Na falta de algo melhor, serve. O ônibus chega, a senhora senta no primeiro banco logo após a catraca. Olha atentamente para a rua, e permanece o tempo todo desta forma. Seu olhar busca algo, é disperso. Sento-me próxima o suficiente para analisar sua feição e descobrir detalhes ainda inexplorados. O rosto me chama a atenção. Seus olhos levemente puxados se escondem atrás dos óculos de armação marrom com detalhes dourados. Ela parece um conjunto inteiro marrom, cor de sabedoria e desânimo. Eu imaginava que tinha aproximadamente 60 anos, mas seu rosto liso, quase sem rugas me pôs em dúvida. A delicadeza do rosto, porém, se contrapunha à aspereza das mãos. Estas manchadas pelo tempo, com as veias já à mostra, de leve tom azulado. A mão direita acaricia a esquerda e, olhando atentamente, percebo que ela aperta seu dedo anular esquerdo, quase que o massageando, mas não há nada ali. Nenhuma aliança, mas talvez uma marca. Isso explicaria seu olhar perdido nas ruas, sua melancolia característica e a maneira como dava importância ao dedo, mesmo que instintivamente. Não vejo sentido em sua vida, ela vive por viver, sem objetivos. Deve ser aposentada, e parece ter sido professora. Creio que tem filhos, ao menos dois, que por sua vez têm suas famílianão moram mais com a mãe. Ponto da Agronômica. Ela repentinamente se levanta e desce, e continua com seu olhar vago e solitário.
Escrito por Laís Mezzari às 14h38
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Em busca de um vestido
Queria um vestido simples, destes pra usar no dia-a-dia, talvez num barzinho à noite. Andando pela rua comercial no Kobrasol, em São José, passo por três vitrines que chamam a minha atenção. Vestidos basicamente iguais. Minha TPM trouxe vontade de gastar, de achar que mereço me dar um presente. Então, vamos lá! Primeira loja: De longe vejo uma plaquinha em papel sulfite onde estava escrito R$34,00. Sorrio, apesar de saber que nunca seria verdade, e deveria ter um "2x" em letras minúsculas ao lado. Mais perto constato: peças por R$34,00. E é claro que nenhuma da vitrine está neste preço. Vestido: R$94,00 e balonê, que deve deixar meus quadris com o dobro do tamanho, parecendo uma verdadeira pêra. Nem entrei.
Segunda loja: Vestido super simples. Preto sem muitos detalhes e tecido que você encontra na malharia mais próxima. Diálogo: Vendedora: "Este veio do Rio de Janeiro, é da marca X e custa R$259,00" (como se o fato de ter sido feito no Rio de Janeiro mudasse muita coisa. Ah, claro! Teremos olimpíadas lá! Tinha esquecido deste detalhe.) Eu: "Ah... ok. Mas deixa pra lá. Não pago 259 reais num vestido simples". Vendedora: "Mas este é de qualidade! Vem do RIO!! Pensa que ele vai durar a vida toda!" Eu: "Justamente. Não quero um vestido que dure a vida inteira!"
Terceira loja: Praticamente o mesmo vestido por R$54,00. Sorrio. Entrei e me senti um fantasma. A vendedora passou por mim e nem pra dizer "só um minutinho". Acho que meu all star meio acabado e cabelo em rabo de cavalo mal preso não agradaram muito. Fiquei com raiva e saí.
Desisto de gastar.
Escrito por Laís Mezzari às 13h54
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